Quem escreve em um blog em geral o faz com uma linguagem informal, descompromissada, não raro pontuada por erros de grafia que denunciam a urgência com que o internauta escreve seu texto, como rascunhos que já nascem com caráter definitvo. do comando do cérebro ao ato dos dedos digitando no teclado, palavras borbotam e - click! - desembocam direto para a tela.
Na internet prevalece a cultura do imediato: teias de aranha virtuais cobrem um site se este não é atualizado pelo enorme intervalo de ... um dia. Repare: toda vez que um novo texto é publicado, os anteriores deixam de receber novos comentários. Na blogosfera, mais do que nunca prevalece a cultura do imediato: o post está morto, viva o novo post! Em nome da velocidade no carregamento do site, não mais que dez artigos são publicados na página inicial, enquanto os anteriores são empurrados para o quartinho dos fundos. Pergunto: quantos gatos pingados possuem o hábito recorrente de vasculhar os arquivos de um blog?
Em precisa analogia, o escritor goiano Nelson Moraes compara os blogs a palimpsestos - "pergaminhos de couro utilizados por monges da Idade Média para registrar textos e gravuras, que de tempos eram lavados a fim de remover a tinta e gravar novos manuscritos que iam sendo sobrepostos aos anteriores".Ao contrário dos textos impressos, transportáveis para qualquer local e lidos a qualquer hora, o prazo de validade de um post é o tempo no qual é exibido na homepage. Depois, torna-se um jornal virtual a embrulhar peixes cibernéticos, precocemente envelhecidos, folheados por uma massa restrita de leitores.
Em meio a tanta fugacidade, há no entanto aqueles que usam os blogs como escoadouro de toda uma produção literária represada. O que antes jazia em fundos de gaveta agora é compartilhado com um clique de mouse. É óbvio que toda essa facilidade de publicação possui dois gumes - há na web muita literatice constrangedoramente capenga, assim como é possível garimpar autores preciosos que recorrem à interface do blog da mesma maneira que outras gerações criavam fanzines xerocados a fim de divulgar seus escritos.
O blogueiro entre nessa história como um daqueles comediantes novatos que sobem em um palco tal qual no stand-up comedy notabilizado por nomes como Jerry Seinfeld. Despido de cenografia, dá a cara para bater: ao narrar "causos" autobiográficos ou piadas de próprio punho, arrisca-se a receber apupos ou a indiferença de sua platéia, traduzida na ausência de comentários ou na estagnação das estatísticas de seu contador de acessos. Em contrapartida, há aqueles que graças aos blogs tornaram seus nomes conhecidos e foram acolhidos pelo mercado editorial brasileiro, como João Paulo Cuenca, Daniela Abade e Clarah Averbuck.
É preciso falar ainda da crescente influência da blogosfera como meio livre de circulação de informações, tornando-se uma espécie de osbudsman coletivo da grande imprensa em geral. [...] Em países sob regimes ditatoriais, como Irã, China e Coreia do Norte, a blogosfera ganha mais relevância ainda, tornando-se fonte alternativa de informação - representativa a ponto de sofrer severas repressões.[...]Ao final deste artigo, não posso deixar de reiterar aqueles que, a meu ver, são os aspectos mais positivos de um blog: o fomento de debates em tempo real, o estímulo à comunicação de ideias, a democratização da publicação de conteúdo na web, e, principalmente, a liberdade de expressão.
Fonte:OLIVEIRA, gabriela Rodella de, NIGRO, Flávio,CAMPOS, João. Português: A arte da palavra, 7º ano.1ª ed. p. 44, 45. São Paulo. 2009.
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